04/08/2007 - 21h12min
A tragédia aceita do dia-a-dia
José Eduardo de Zotti - Jornalista
A mídia trouxe nestes dias o total de vítimas fatais, somente do mês de julho, na mais longa guerra de todos os tempos: 669 pessoas, ou seja, o triplo de mortos no acidente aéreo cujas imagens ficarão arquivadas em nossas memórias por um bom tempo.
O trânsito brasileiro produz números absurdos a todo momento, mas nos orgulhamos de viver num país onde não há furacões, maremotos e outras catástrofes naturais. Diariamente os jornais ocupam as páginas policiais com fotos de carros batidos, caminhões incendiados, ônibus capotados, motos destruídas. Mas nos dizemos apaixonados por automóveis.
Além dos mortos, incontáveis mutilados e famílias arrasadas. Despesas astronômicas para o sistema de saúde, todos pagamos a conta. E parece que nada demais está acontecendo. Nos acostumamos com esta carnificina a olhos vistos.
Se o correspondente a três ou quatro boeings “caem” somente nas estradas federais a cada mês, sem que haja reação alguma de nossa parte, e se choramos sem parar pelas vítimas do air bus da TAM, confesso que devo ter perdido alguns capítulos desta novela.
É claro que também me incluo neste quadro. Chorei pelo acidente em Congonhas e fiz várias mensagens de pesar para as famílias enlutadas. Mas quando recebi a informação do total de vítimas do trânsito brasileiro no mês passado, fiquei pensando. O que nos leva a aceitar pacificamente esta tragédia? Por que o brasileiro não se importa com estas mortes, com as seqüelas terríveis que envolvem milhares de irmãos?
Não tenho as respostas. Não tenho as soluções. Não me sinto capaz nem mesmo de analisar o básico do básico, que seria a pouca estrutura da nossa malha rodoviária, carros velhos, sem manutenção, carros novos, projetados para mais de 200 km/h, bêbados e drogados ao volante, falta de sinalização básica (como aquela plaquinha de Pare antes da preferencial) ou motoristas despreparados, que se vingam de alguns motoqueiros que costuram, e que sofrem a vingança de outros tantos caminhoneiros que não admitem de ser ultrapassados.
Só sei que esta é uma tragédia que aceitamos, como se não estivesse ocorrendo. E que continuará a produzir vítimas e mais vítimas, a cada dia, a cada hora, a cada minuto, ali e aqui, bem pertinho de nós. |